Política e Pesquisa 150 - a
Ficou pronta a edição do livro Olhos azuis – memórias do submundo de um afrobrasileiro. O que é possível se aprender com alguém que passou pelo submundo do crime, sobreviveu e acredita ter sobrevivido para contar sua história. A seguir entrevista realizada com autor desse livro, Noclides Justino Alves. Perguntas formuladas por Jorge de Souza Araujo.
Entrevista com Sr. Noclides sobre o livro denominado “Olhos azuis; memórias do submundo de um afrobrasileiro”:
1. O que o motivou a escrever, como o senhor diz, As memórias do submundo de um afro-brasileiro ?
Autor: Passei a tomar conta de uma biblioteca em São José do Rio Preto em um instituto penal. Isto me motivou a escrever. Eu não deveria ter mencionado esta palavra: afro-brasileiro. Nunca me comportei como um afro.
2. Que idade tinha quando do golpe de 64. Seriam 18 anos, porque alistado no Exército?
Autor: Em 64 estava com 27 anos. Já estava no mundo do crime. Como menor já tinha praticado alguns atos.
3. O senhor menciona ligações da subversão, prisioneiros na Ilha Grande, com assaltantes em São Paulo, exprimindo que formavam uma grande quadrilha (p.19). Poderia destacar os indícios desse agrupamento?
Autor: Eu tive ligações com muitos elementos de São Paulo que estiveram na Ilha Grande, incluindo meu irmão mais velho que já morreu. Esteve dois anos na Ilha Grande. Eu era que dava dinheiro para a mãe visitá-lo. Umas três vezes. Em conversa com meu irmão já falecido, ele me contou que na Ilha Grande tinha de 20 a 30 conhecidos dele da Vila Prudente, incluindo Roberto Cieto, o Pancho, que morreu no Rio.
4. Suas memórias chegam a cultuar a personalidade de alguns marginais (Capitão, Jorginho, Pancho, Promessinha). Qual seria a motivação principal desse culto?
Autor: O Sr. Disse que eu estou cultuando a memória de alguns bandidos. Se eu fosse fazer o que o senhor está dizendo, não caberia neste livro. Os americanos falam do Jesse James, Bonnie e Clyde, Al Capone, como se eles tivessem morrido ontem.
5. Que notícias concretas o senhor tem das relações promíscuas entre a polícia e os assaltantes?
Autor: Sempre houve essa relação. Não eram todos os policiais e nem eram todos os bandidos.
6. Que ligações objetivas o senhor teve com a reação à Ditadura, a chamada esquerda subversiva e revolucionária?
Autor: Não tive nenhuma ligação. Só sei que me fizeram o maior mal, me prendendo sem documento. Não quiseram saber realmente quem eu era. Jogaram-me no Departamento de Investigação-D.I.. Na ida para o presídio de corregedoria, por nome Rua da Alegria. Ficava no Braz. Estouraram a tranca e quase todos fugiram, inclusive eu. Consegui chegar à favela da Vila Prudente, sem ser pego. Meu bom acolhimento na favela foi porque meu irmão foi um dos primeiros a roubar dois ou três carros e levar os bandidos para sair para os quatro cantos de São Paulo, assaltando. Meu irmão já estava no Rio neste tempo. Este foi o motivo porque me trataram muito bem.
7. Ressalta de seu relato um código de solidariedade e ética entre bandidos. Nesse sentido, sua obra faria apologia ao crime ou ao criminoso?
Autor: Quem criou ética entre os bandidos não fui eu. Sempre existiu. A máfia italiana foi quem criou, não fui eu. Anos atrás, a filha de um mafioso só casava com filho de mafioso para ficar tudo em família, que não é o caso do meu livro.
8. Suas memórias tendem a um certo romanceamento das ações dos marginais, a exemplo de Pancho, Promessinha, Jorginho, Chico 13, com ingredientes novelescos envolvendo Pancho e Eugênia, filha de um juiz da vara de execuções criminais no Rio de Janeiro...
Autor: O senhor disse que há um certo romanceamento das ações dos marginais. Eu omiti muita coisa com razão. Se eu tivesse falado mais coisas, estaria mais preocupado. Se existe ética para ser cumprida, devemos cumpri-la. Eu omiti muitos fatos reais, que deixariam muito mais chocado o leitor. Eu não só conheci estes quatro ou cinco que cito. As histórias que tenho para contar são muitas. Este pouquinho que falei, o senhor já ficou chocado. Eu não morri com quase quinze anos nos morros do Rio, por não ser de nenhuma facção criminosa. Eu ia em todos os lugares. Eu tenho muitas histórias verdadeiras para contar do Rio e São Paulo. A história do finado Pancho e Eugênia. A morte de Pancho com os subversivos e a verdadeira morte dele com a Eugênia.
9. Há flagrantes lacunas temporais em seu relato. Há alguma razão objetiva para isso?
Autor: Não entendi.
10. A personagem do Capitão é inspirada em alguém especial, o Capitão Lamarca, por exemplo? Na hipótese afirmativa, suas memórias associam Lamarca a criminosos comuns nas atividades de guerrilha urbana?
Autor: Na época da Revolução, os bandidos se uniram mais e começaram a imitar os subversivos, que gostaram e passaram a copiar a ação dos bandidos comuns. Em São Paulo eu conheci mais de dez bandidos comuns que se uniram ao deputado Marighella que era o braço forte da Revolução. Não existe guerrilheiro melhor do que bandido comum, quando tem que agir por contra própria, sem um comando. O capitão era acima de tudo um homem humilde. Morava no Rio, no São Carlos, que é favela, mas parece mais com bairro de classe média. Mas tem favelado também. A humildade cabe em qualquer lugar. Quando ele fugiu do quartel com um caminhão carregado de armas se escondeu no São Carlos, para depois sair fora. Quando não estava em ação, andava só no seu volks e sempre vestido de padre. Eu não associei ele com ninguém.
Escrito por Agenor Gasparetto às 09h06
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