Política, Pesquisa e Literatura
  

POLÍTICA E PESQUISA 217

 

Notas sobre a Ibéria

O UOL, de 29/07/2009, traz matéria curiosa do diário espanhol EL PAÍS, de Fernando Peinado, sob o título Espanhóis rejeitam ideia de união ibérica; portugueses, nem tanto - El País, traduzida por Luiz Roberto Mendes Gonçalves. Aqui, essa matéria será reproduzida em seus principais pontos.

Portugal se constituiu como um reino autônomo da coroa de Castela, que comandou a unificação espanhola no final do século XV, ainda em 1143. A rigor, foi o primeiro Estado, no sentido moderno da palavra, a se firmar pós mundo medieval, o que deu a esse pequeno país grandes vantagens, como a liderança nas navegações e a construção de um imenso império, sendo o Brasil o seu principal trunfo. Na história dos últimos 500 anos, de 1580 a 1640, pela morte de D. Sebastião e vacância do trono, o rei da Espanha de então assumiu também o reino de Portugal. Essa união, motivada pelas circunstâncias, abriu caminho para a expansão das fronteiras do Brasil, via Entradas e Bandeiras. Contudo, a ideologia da junção dos dois países, iberismo, já motivara burgueses e intelectuais no século 19, mas não ganhou aderência histórica. Historicamente, Portugal alinhou-se mais a Inglaterra enquanto a Espanha, à França

Essas breves notas históricas são apenas para dizer que a pesquisa realizada pelo Barômetro de Opinião Hispano-Luso (Bohl), dirigido pelo Centro de Análises Sociais da Universidade de Salamanca, não é sem propósitos. Trata-se da primeira pesquisa no âmbito espanhol, embora o jornal português, Sol, tenha realizado também uma pesquisa em 2006 sobre a temática.

Recentemente, o prêmio Nobel de Literatura, José Saramago, insinuou a união das línguas portuguesa e espanhola. Já mencionamos, em inserção passada neste blog, que há quem prognostique que a Língua Portuguesa será uma língua em extinção daqui a três gerações. Mas vamos a alguns dados dessa pesquisa:

A pesquisa publicada mostra que 50% dos portugueses consideram que o ensino de espanhol deve ser obrigatório nos cursos primário e secundário, e esse percentual chega a 86,1% enquanto língua alternativa.  Já o inverso não entusiasma tanto, pois o ensino obrigatório do português nas escolas espanholas foi rejeitado por 76,2% dos espanhóis. (Fenômeno semelhante, mas com sinal contrário, tende a acontecer nas fronteiras do Brasil na América do Sul).

Há mais predisposição dos portugueses em relação a um aumento da cooperação política entre os dois países, como a criação de um sistema fiscal conjunto ou o fim total das restrições à mobilidade e ao assentamento de profissionais, trabalhadores e empresas, que receberam o apoio de 59% e 72% entre os portugueses e de 37,1% e 63,2% entre os espanhóis. Já a realização de eventos internacionais, como uma copa do mundo, em 2018, recebeu o apoio de aproximadamente 75% dos portugueses e de cerca de 50% dos espanhóis.

Já a ideia de uma união política entre os dois países é recorrente no debate português e praticamente ignorada no lado espanhol. A razão da predisposição portuguesa a uma união com a Espanha, numa federação, em pesquisa realizada pelo jornal Sol, em 2006, revela que é de matiz econômico, uma vez que 97% dos portugueses acreditam que Portugal se desenvolveria mais se se unisse à Espanha, embora 34,1% dos portugueses rejeitariam, mesmo assim, essa união. Unidos, a hipotética Ibéria, nome da península re-unificada, seria o quinto país mais populoso da Europa e seria também o quinto PIB, seguido por Alemanha, Reino Unido, França e Itália.

A relação entre os dois países, para os 876 ouvidos pela pesquisa, permaneceram iguais para 61% dos espanhóis e melhoraram para 63,9% dos portugueses. Observa-se que essas relações são avaliadas como boas ou muito boas.

 

HONDURAS: UM GOLPE TRATADO COMO DEVERIA SER TRATADO

A comunidade internacional não respaldou os golpistas hondurenhos. Nenhum país reconheceu o novo governo e os Estados Unidos, num sinal claro dos novos tempos, não respaldaram os golpistas, sequer autorizando-os a freqüentar os Estados Unidos. E os Estados Unidos não morrem de amores pelo presidente deposto, Manoel Zelaya, em função de sua aproximação a Hugo Chaves, da Venezuela. Contudo, nem por isso abriram mão de priorizar o respeito manifestado nas urnas. Bom sinal. Mau sinal são emitidos entre três países: Colômbia, Venezuela e Equador, em que Álvaro Uribe acusa os presidentes vizinhos, Hugo Chaves e Rafael Correia, de ligações com as FARCs.

 

NOÉ, DA ARCA, E PESQUISA DE MERCADO

Noé, figura bíblica responsável pela construção da Arca, que acabou levando seu nome, não tratou de construir sua arca quando a chuva começou. Quando essa chegou, a sua arca estava pronta e os animais sendo conduzidos, aos pares, nela. Nessa perspectiva, Noé foi previdente, planejou e estava preparado quando o desastre chegou. Noé não fez pesquisas de mercado. Teve acesso a uma informação privilegiada, de que haveria um dilúvio.

Hoje, informações privilegiadas, ainda que atalhos magníficos para o enriquecimento, vão contra a ética dos negócios e não passam de corrupção. Mesmo assim, nem tudo está perdido. Boas pesquisas de mercado podem proteger contra dilúvios econômicos e de outras ordens, subsidiando tomadores de decisão a que minimizem o erro e maximizem o acerto.



Escrito por Agenor Gasparetto às 11h44
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