Política, Pesquisa e Literatura
  

Política e Pesquisa  220

 

ÁLVARO URIBE, BASES AMERICANAS E AMÉRICA LATINA

Álvaro Uribe, presidente eleito em 2002 e reeleito em 2006 da Colômbia, após mudar constituição, ratificada por referendo popular (assim como Fernando Henrique Cardoso-FHC- fez no país, ainda que sem referendo), tenta agora a sua segunda reeleição, mudando novamente a Constituição e convocando novo referendo, precisando de pelo 25% dos votos. A oposição fará campanha pela abstenção, para que não alcance esse percentual, cerca de 7 milhões de votos. Ainda precisará que Corte Constitucional do país valide essa pretensão. O encaminhamento do terceiro mandato consecutivo de Uribe, ao contrário da vizinha Venezuela de Hugo Chaves, parece não causar estranheza em nossa grande mídia. Não há nenhuma demonização de Uribe e suas pretensões de se eternizar no poder. Essa tentação já acossou Menen, na Argentina, Fujimori no Peru, Chaves na Colômbia, levou FHC a tentar um plebiscito para mudar o sistema brasileiro de presidencialista para parlamentarista, para com isso, quem sabe, fazer o que Putin, na Rússia, logrou fazer, ou seja, sair da cadeira de presidente e assumir a de primeiro-ministro. O fato é que o poder é um visgo por demais forte. No país, até recentemente ouviam-se murmúrios a favor de um terceiro mandato para Lula. Esse, se acontecer, será em 2014, intercalado por outro presidente.

Uribe, ao abrir as portas para seis bases militares em que os Estados Unidos poderão operar no país, com a justificativa de combater o terrorismo e o narcotráfico encerra potencial ameaça de produzir uma turbulência política no subcontinente com decorrente corrida armamentista, boa para vendedores de armas e ruim para a viabilidade de um projeto de longo prazo de realização nesse espaço, como reza nossa Constituição, de “uma comunidade latino-americana de nações”. A Colômbia assegura que as operações a partir das bases serão apenas em território colombiano, dizendo respeito à soberania do país, razão pela qual não precisava consultar ninguém da região a respeito antes. Contudo, num recente incidente, com o propósito de atacar guerrilheiros, a força aérea colombiana invadiu território equatoriano, provocando a reação desse país. Pessoalmente, a melhor solução, agora que o subcontinente criou a Unasul, é que a própria região se organize para dar suporte à superação do problema da guerrilha colombiana e do narcotráfico, que tem na ponta consumidora o principal sustentáculo. Essa solução contém menos riscos de turbulências à estabilidade regional do que uma presença forte do país que é a principal força bélica do mundo.  A polarização que se desenha faz algum tempo pró-Estados Unidos e contra Estados Unidos, tendo como cabeças regionais Colômbia e Venezuela não parece boa. Perde o Brasil que vê seu poder de liderança minimizado, assim como seu projeto de integração. A polarização mais desejável teria que ser encabeçada pelo país, buscando solução regional para os seus problemas, blindando a região de interferências externas, ampliando sua condição de região livre de conflitos e distante de ameaças reais de confrontos bélicos. Em última instância, um Brasil forte e legitimado como líder, seria também a melhor alternativa para os Estados Unidos, que poderiam se concentrar em outros focos de tensão do mundo e contribuir para a sua superação, uma vez que a estabilidade é necessária aos investimentos e ao desenvolvimento e à retomada do crescimento econômico, que a presente crise vem comprometendo. 

Por fim, lembrando, o último conflito no subcontinente deu-se entre os países mais pobres, em 1932, na triste Guerra do Chaco, entre Paraguai e Bolívia. No século anterior, dois conflitos, a Guerra do Paraguai, envolvendo Brasil, Argentina e Uruguai contra o Paraguai, e a Guerra do Pacífico, em que o Peru perdeu Arica e a Bolívia perdeu sua saída para o mar e que deseja ardentemente recuperar. Afora isso, uma rusga entre Chile e Argentina pelo Canal de Beagle, no extremo-sul do continente e em tempos de militares governando um lado e outro dos Andes, após golpes militares. Além disso, a patética Guerra das Malvinas, em que o governo militar argentino, em processo de enfraquecimento, tentou se relegitimar erguendo a bandeira das Malvinas serem ilhas argentinas e não inglesas. Nossa tradição, ao contrário de outras regiões do mundo, é de estabilidade ainda que campeando a pobreza e a corrupção de governos e vários golpes de estado pipocando em vários países ao longo do Século 20. Contudo, agora que os golpes, felizmente, estão em baixa, como revela o recente na pequena Honduras, a tentação é a perpetuidade no poder mediante estratégias legais, como reeleições sucessivas.  

 

CRISTÓVAM BUARQUE E VEREADORES

O senador Cristóvam Buarque está propondo reformulações numa hipotética reforma política. Entre as propostas, a gratuidade do trabalho dos vereadores, pensados como conselheiros municipais, nos municípios em que há apenas um turno, ou seja, em que há menos de 200 mil eleitores. Sobre esse assunto fiz vários comentários em tempos passados. Um dos problemas da política, incluindo no plano municipal, é a crescente mercantilização. O problema, a meu ver, como já foi explicitado, não está no número de vereadores em uma câmara municipal, mas no caráter mercantil que assumiu o processo eleitoral e o exercício do mandato. Parece pouco democrático reduzir número de vereadores, como se fez, sem reduzir repasse da prefeitura à câmara de vereadores. Com isso, apenas se diminui a representatividade política e se aumenta o poder de fogo dos que acabam sendo eleitos. A retomada da discussão parece bom, quem sabe também aos cofres públicos e também à representatividade política das comunidades.



Escrito por Agenor Gasparetto às 18h02
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Política e Pesquisa  219

 

Bienal do Rio

Nova edição para a Bienal do Livro do Rio de Janeiro. A editora, numa parceria com a Câmara Baiana do Livro, participará com o autor Jorge de Souza Araújo.

 

O Pêndulo de Euclides

No centenário de sua morte, Euclides da Cunha ganha os olhares atentos de muitos. Na Bahia, o professor e escritor Aleilton Fonseca lançará o romance O Pêndulo de Euclides, editado pela Bertrand, do Rio de Janeiro. O romance centra-se sobre a Guerra de Canudos e o livro Os Sertões, de Euclides da Cunha. O livro será lançado na Academia de Letras da Bahia neste mês de setembro.

 

Dois fragmentos de O Pêndulo de Euclides

Do romance, destaco dois trechos em protagonistas discutem o valor dos cordéis encontrados dentre os espólios da guerra pelos soldados:

1 - “O mais pobre dos saques que registra a história”

“ – Euclides afirma que após a guerra os soldados fizeram uma devassa nas casas em ruínas, curiosos, em busca dos despojos. Fizeram o que ele chamou de “o mais pobre dos saques que registra a história”. Encontraram imagens mutiladas, rosários de cocos e os “desgraçados versos”. São mesmo “pobres versos muito malfeitos”, que nem de longe representam a qualidade poética de cordel do sertão.”

2 – “A luta necessária ...” e o “erro histórico”

A propósito de uma visão negativa de Euclides da Cunha do ideário sertanejo, como as idéias contrárias à República, “resultantes do atraso cultural, da ignorância da população sertaneja”, o protagonista Alex dá uma nova interpretação:

“- Paradoxalmente, a visão negativa de Euclides sobre os sertanejos joga a favor de Canudos. Eles não tinham formação e informação para entender as ideias republicanas. Portanto, não eram inimigos da República, mas sim seus credores em termos de ensino e assistência. Por isso, Euclides conclui que os sertanejos requeriam outra reação do governo. Ou seja, a luta necessária não seria aquela da forma militar e dos canhões, mas sim através da educação, das letras, das luzes, do progresso e da cidadania. A partir disso, Euclides interpreta a intervenção militar como um erro histórico, como um crime da nacionalidade contra patrícios, de que seu livro se torna uma grande e ruidosa denúncia.”

 

“A luta necessária ...” e outros “erros históricos” ?

A narrativa bíblica começa com um Paraíso, um Jardim do Édem, e termina numa mega tragédia, num Apocalipse. Há quem diga que a imagem do paraíso terrestre e seu Jardim do Édem se situaria na babilônia. Concretamente, lá é que foram construídos os Jardins Suspensos da Babilônia, uma das maravilhas do Mundo Antigo. E em toda intervenção militar, ainda para ficarmos na Babilônia de hoje, para muitos o apocalipse é real.

Curiosamente, essa passagem sobre Canudos insiste em trazer à lembrança à Guerra do Iraque, apenas para fazer referência, não ao apocalipse de muitos milhares de iraquianos e suas famílias, mas para fazer referência ao Jardim do Édem que poderia ser aquela rica região, berço das mais antigas civilizações humanas. No caso do Iraque, é possível pensar que a intervenção militar também foi um erro histórico e que a intervenção poderia ser de outra natureza?

 



Escrito por Agenor Gasparetto às 18h01
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